Escuridão Mental – Esboço Inicial

O mundo está cada vez mais estranho, a cada momento em que nos aproximamos do amanhã, mais a profecia daquele mago astuto se concretiza.

ㅤㅤEnquanto a violenta chuva cai, ele aguarda o destino profetizado recair sobre os tolos. Dentro de sua sala, com inúmeros patos reluzentes, ele exclamava:

ㅤㅤ- Mereça! 

ㅤㅤ- Ora, mago goró, o que está havendo? – questiona uma caveira na sala.

ㅤㅤ- Já te disse para parar de me chamar assim, seu indigno – grita o mago – não vês que estou falhando em recriar o ser perfeito?  Não importa o que eu faça, as faces dos meus jarros continuam “nada boas”.  

ㅤㅤOuve-se batidas em sua porta. Do outro lado alguém grita: 

ㅤㅤ- Ó, mago poderoso, ajude-me, ajude-me.

ㅤㅤO mago astuto usa sua bola de cristal para ver quem em sã consciência está em sua porta no meio de uma das maiores tempestades já vistas pela humanidade. Ao observar bem para sua esfera da verdade, se depara com uma imagem que ao se descrever parece insana, mas não há dúvidas: o que está clamando por ajuda em sua porta é um cachorro roxo com uma cartola, sobre duas patas.

ㅤㅤ- Ih, vixe! – exclamou o mago.

ㅤㅤ- Você deveria atendê-lo, mago goró – disse a caveira – inegavelmente ele tem estilo com essa cartola. 

ㅤㅤ- Não sei onde estava com a cabeça quando decidi aprisionar sua alma nessa caveira! És muito estúpido, um mago de tamanho poder como o meu jamais se arriscaria para ajudar um cachorro na chuva! Lembre-se das minhas profecias!

ㅤㅤ- Não entendo… – retruca em tom de ironia – Não és o todo-poderoso mago astuto? Que mal pode te acontecer? Você garantiu que esses patos estúpidos o protegeriam. Não vá me dizer que o sábio mago estava errado…

ㅤㅤ- Ah, bom! – exclama o mago enquanto se dirige à porta em uma velocidade considerável.

ㅤㅤApesar de astuto, o mago tinha seu ego facilmente atingido, principalmente se o questionamento vem de uma caveira que ele garante ser indigna. Abrindo a porta, não teve nem chance de questionar o nome da criatura, como um raio, o cachorro púrpuro entrou na casa do mago e bateu a porta dizendo:

ㅤㅤ- Por favor! Eu não quero ser consumido por eles, me ajude!

ㅤㅤ- Eles quem? – questionou o mago.

ㅤㅤ- Os agentes da Receita Federal! – exclamou o cachorro – eles querem taxar a compra que fiz da China!

ㅤㅤ- Receita Federal? Achei que estava fugindo dos agentes do Umbral. Por que procuraste refúgio logo em meu co

ㅤㅤ- Umbral!?!? Ora, azar o meu de vir me refugiar com um velho goró!

ㅤㅤ- Não me chame assim, seu insolente! – confrontou-o – e você, fique na sua! – gritou o mago, apontando para a caveira no outro lado da sala – Olha, não sei o que é pior: a sua insolência ou o fato de atraíres a Receita Federal até a minha casa! Eu soneguei toda a minha renda do ano passado para comprar os patos protetores! Temos que fugir daqui agora! 

ㅤㅤOuve-se um estrondo no quintal nos fundos do covil do mago. Um estrondo forte o suficiente para imaginar-se algo que veio do espaço. Todos saíram para averiguar o barulho, e ao chegarem ao local se depararam com um boneco de pelúcia.

ㅤㅤ- Pelas barbas do Takeshi! Dessa vez não é alucinação causada pelo ópio, hein, mago goró? – indaga a caveira.

ㅤㅤ- Realmente transformar um palmito azedo em uma caveira flutuando foi uma das minhas piores decisões! – retruca o mago astuto – Por que não faz algo de útil e vá averiguar melhor quem é aquele ser? 

ㅤㅤO mago arremessa a caveira até a cratera e com seus terríveis poderes ele cria um corpo imaterial para o mesmo interagir com o misterioso objeto sideral. Aproximando-se da aparente pelúcia, a caveira sem conseguir conter sua risada, fala:

ㅤㅤ- Eu vim por ordem do grande mago goró, manipulador do ópio! – recebe uma pedrada do mago – Apresente-se, diga-nos seu nome!

ㅤㅤ- Eu sou uma consciência coletiva! – responde com uma voz distorcida – O meu verdadeiro nome seria capaz de dar um nó no cérebro que falta em seu crânio, caveira engraçada; mas, pode me chamar de Turma do Alek. Aperte minha mão e se apresente também, amigo! 

ㅤㅤ- Ora, Turma do Alek, o mago goró costuma me chamar de indigno – fala enquanto segura a mão de pelúcia do ser sideral – mas meu nome é J- 

ㅤㅤDe forma repentina, a caveira se desintegra implodindo.

ㅤㅤ- Rapaz! – exclama o mago – Gostei de você, Turma do Alek!

ㅤㅤ- Eu também – diz um homem ao lado do mago.

ㅤㅤ- Ora, quem é você!? – exclama o mago – Como entraste em meu covil ultrassecreto e discreto!?!?

ㅤㅤ- Bem, meu nome é Tô Com Dor – diz o homem – e entrei nessa espelunca pelo buraco gigante no teto. E, sinto lhe informar senhor, mas uma casa verde-fluorescente com inúmeros patos reluzentes e jarros de boas não é nem um pouco discreto… Concorda comigo, Mestre Ogro?

ㅤㅤ- Sim, aliás, este lugar fede a ópio.

ㅤㅤConfuso com as informações que sua mente brilhante estava recebendo, o mago astuto exclama: 

ㅤㅤ- Quem mais há de aparecer no meio desta tempestade? Não se ouve mais nada. De repente, tudo que estava ao seu redor some e seu campo de visão fica totalmente branco. Olhando para baixo, ele observa que está vestindo um tipo de camisa de força.

ㅤㅤDe repente, ele ouve uma porta abrir atrás de si junto a uma voz feminina:

ㅤㅤ- Hora do remédio, senhor Takeshi!

ㅤㅤNo final, toda aquela escuridão ocasionada pelo umbral que o mago astuto previa e se prevenia não passava de uma alucinação comicamente gerada pela sua cabeça louca.